18 de dezembro de 2018
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Vem aí a Diversidade Cognitiva

Quase tudo já se escreveu sobre a importância de uma boa diversidade de gênero, de cultura (a chamada “multiculturalidade”) e de gerações como fator crítico de sucesso organizacional e como a eficiente gestão destas multiplicidades pode fazer a diferença na qualidade das “entregas” das equipes e na eficácia no atingimento de melhores resultados.

Mas… pára tudo!

Vários estudos bem recentes começam já a encontrar uma tal de “mãe de todas as diversidades” nas nossas empresas. Falo de uma nova Diversidade Cognitiva! Em março de 2018 a HBR alertava para os perigos dos “colaboradores terem tendência em se movimentar junto de outros que consideram seus semelhantes” e como perigo final, as empresas acabar por  “construírem” equipes muito semelhantes entre si.

O que quero falar concretamente é sobre a relevância crescente que se dá à existência de uma diversificada forma de pensar dentro da organização e a importância de reforçar dentro das equipes e das próprias empresas uma multiplicidade de pontos de vista diversos e de experiências diversificadas. Uma espécie de “amálgama” de diferentes pensamentos, ideias, ideologias, visões ou simplesmente opiniões diferentes sobre os mesmos aspectos, desafio e respostas aos problemas.

Nas minhas passagens pelo “mundo do RH” no Brasil deparei-me com vários exemplos atuais de empresas que já buscam uma gestão de  Diversidade Cognitiva nas suas políticas e práticas de recrutamento, atração, retenção, carreiras e gestão do desempenho, muito inspiradas em novos estudos que relacionam esta pluralidade de pensamentos e criatividade nas ações como fator positivo em contradição com as clássicas visões organizacionais que estimulavam formas semelhantes de pensar, agir e que encaminham as equipes para as soluções que fossem fruto de uma cultura ou opinião generalizada, para não dizer dominante, e que no limite atirava as pessoas para uma certa homogeneidade e estabilidade de pensamento.

Mesmo quando as empresas desafiam as suas pessoas a pensarem fora da caixa, o fato dessas mesmas pessoas terem passado por processos experienciais similares, e por ações de “pensamento organizado” e formação comuns, a maior parte das vezes essas pessoas nos seus processos de inovação são fortemente influenciadas por outras formas de “encaixar” as tais novas ideias e soluções.

Na contrapartida, se as empresas buscarem uma Diversidade Cognitiva, atraindo às suas equipes pessoas assumidamente diversas, e que somam experiências bem diversas umas das outras, a “palavra chave” é mesmo a da gestão do diverso e da diferença, o foco é na multiplicidade.

Obviamente, esta nova forma de diversidade é bem desafiadora em termos da sua promoção e gestão. Em vez da simples partilha, promove-se o debate de ideias e pensamento. Em vez da agregação, promove-se a (des)construção permanente, numa ação que em “bom português” poderia ser designado de um permanente “embaralhar e voltar a dar” novas ideias, soluções e pensamentos diversos.

Um exemplo que tem sido apontado como empresa que promove e gere esta “Diversidade Cognitiva” de forma muito eficaz é o Grupo Boticário. Da gestão de topo à gestão de pessoas e equipes, foram introduzidos processos e mecanismos de seleção e mobilização de pessoas com diferentes formas de pensar e agir, bem como são valorizadas as experiências diversas na constituição das equipes. O Presidente do Grupo Boticário disse recentemente a uma publicação brasileira de referência que tem como prática o “exercitar a diversidade cognitiva” como sua prática diária até porque reuniu à sua volta quatro vice-presidentes que são bem diferentes na forma de pensar e experiência, dado que se “procurasse manter quatro réplicas de si próprio à sua volta” isso em nada contribuiria para o crescimento, enriquecimento e sucesso do grupo no Brasil e no mundo e da sua gestão.

Estamos portanto (todos!) desafiados para a efetiva promoção de uma cultura de diversidade de ideias, opiniões e experiências, onde a criatividade possa ser efetiva e onde a “gestão pela diferença” é uma fator de crescimento e desenvolvimento organizacional.

Será que chegou o momento de inverter o “adágio” popular? Será que o que nos une é muito menos do que o que nos separa?

Seja como for, venha daí (mais) essa Diversidade Cognitiva!

 

Pedro Ramos
Diretor de RH do Grupo TAP Air Portugal

Paulo Sérgio de Souza Corrêa

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